— Hoje eu ouvi de uma pessoa, que se diz religiosa, que os Dez Mandamentos são coisas dos antigos e que hoje não valem mais.
Senti que Jesus, ao ouvir estas minhas palavras, ficou triste. Por isso, levou alguns instantes para me responder.
— Este é um dos maiores males em que o homem de hoje está afundado, sem o perceber.
— Como assim, Jesus?
— Os meus discípulos deveriam enformar, ou seja, dar uma forma cristã, ao mundo, testemunhando um modo de vida coerente com a sua fé e com os meus ensinamentos. No entanto, está acontecendo ao contrário: as pessoas querem que a igreja seja enformada pelo mundo, aceitando todos os seus erros, inclusive um dos mais abomináveis, que é o aborto. Se de toda a Sagrada Escritura restasse apenas o Decálogo, ainda assim a humanidade saberia fazer a vontade de Meu Pai. Os Dez Mandamentos são eternos e, ao contrário do que se pensa no mundo, não são opressores da liberdade do ser humano, mas, ao contrário, são libertadores, a começar pelo egoísmo, do qual tantos são escravos.
— Eu não me sinto escravizado pelo egoísmo!
— Não mesmo? Se assim fosse, tu conseguirias com facilidade praticar tudo o que Eu ensinei. Entretanto, tu mesmo sabes quanto ainda falta em tua vivência de fé para ser um bom discípulo.
— Eu tento, mas há tantas pessoas e situações que nos tiram do estado de graça em que queremos estar. Eu mesmo, que me sinto agraciado com estas nossas conversas, saio da igreja sempre muto bem-intencionado e, mal saio da igreja, tantas coisas erradas vão aparecendo em meu caminho que acabo fechando meu coração.
— E, com isso, quantas vezes tu julgas e até desejas o mal ou a morte para os que estão agindo errado?
Fique constrangido de responder:
— Muitas...
— Se amasses, como eu sempre ensinei, serias um discípulo melhor.
— Mas eu tento amar!
— Enquanto estiveres escravizado pelo teu ego, será muito difícil seguir-Me.
— Mas eu não me sinto escravizado.
— Se não fosses escravo, realizarias tudo o que eu te peço; porém, mesmo eu te concedendo a graça destas visitas e tu saindo destas nossas conversas animado pelo amor, ao chegar lá fora não consegues fazer todo o bem que teu coração te pede. Isso é liberdade? Isso é ser livre?
Fiquei em silêncio por longo tempo, sem saber o que responder. Ouvi, então, Jesus falar:
— Hoje, Deus está sendo ofendido, desrespeitado, ignorado, esquecido. Há tantos pais e mães que não respeitam a si e nem o fruto que geraram. Vidas são tiradas inúmeras vezes por banalidades. O adultério avança, como se fosse um avanço da humanidade e um direito de cada um. As difamações e as notícias falsas veiculadas pela internet e de outras formas massacram o coração de tantas pessoas, levando-as muitas vezes ao suicídio; há tantos que se comprazem com a destruição da imagem de outros. As corrupções, roubos, desvios de dinheiro e a sede de poder levam a população mais humilde a viver na miséria, pois o que é roubado e desviado não pertence ao corrupto, mas ao povo.
— Tu traçaste um retrato fiel de nossos tempos.
— Os Dez Mandamentos falam da sacralidade do outro. O outro é sagrado, é intangível, intocável. Mas em um mundo profundamente egocêntrico, o Decálogo parece fora de época, coisa antiga e deve ser ignorado. Porém, ao contrário, nunca deverá ser descartado ou ignorado, pois se tal ocorrer, a humanidade estará caminhando para a autodestruição.
Permaneci em silêncio, tentando acolher essa Palavra de Jesus. Mais uma vez, foi ele que quebrou o silêncio.
— Tu recordas qual é o primeiro mandamento do decálogo?
— Sim, este é fácil: amar a Deus acima de todas as coisas do mundo.
— Quando amamos a Deus acima de todas as coisas, este amor torna-se uma referência para amarmos as outras pessoas. Embora a maioria das pessoas sobre a terra afirma que acredita e ama a Deus, no seu dia a dia Deus está esquecido. Sem este amor fundamental, não se consegue amar a ninguém, nem a si próprio, pois o egocentrismo é falta de amor a si mesmo, ainda que se pense o contrário. Por esta razão, quando perguntaram-Me sobre o maior dos mandamentos, eu resumi tudo a um só: Amar a Deus sobre todas as cosias e próximo como a sim mesmo. Mas como o ser humano é muito centrado em si, em outro momento eu disse: Faça ao outro o que queres que façam a ti. Ainda assim, as pessoas querem que sua vontade se realize e ignoram o outro. E o segundo mandamento?
— Não tomar o santo Nome de Deus em vão.
— Como tu o entendes?
— Eu lembro que, quando criança, ao me ouvir falar muitas vezes em Deus ou em Ti, Jesus, seja porque caí, ou levei um susto, ou dei uma topada com o pé em uma pedra, ela me dizia que era pecado ficar incomodando a Deus.
Jesus riu quando ouviu esse meu comentário. E me disse:
— Pois eu prefiro ser chamado nesses momentos de dor do que ouvir um palavrão ou uma blasfêmia sair espontânea ou automaticamente. Mas este mandamento refere-se a algo muito maior. Meu Pai quer que todos os seus filhos ajam como irmãos e vivam testemunhando concretamente o amor uns aos outros, a partilha, o cuidado com o próximo. Quando sabemos que alguém, por exemplo, passa fome, não é a Deus que devemos nos dirigir, mas nos unir para ajudar aquela pessoa a superar a sua necessidade. Quando, porém, pedimos a Deus que faça o que nos cabe fazer, O estamos chamando em vão. Não peças a Deus para fazer o que cabe a ti. Estarás chamando-O em vão. Também este mandamento é compreendido a partir do amor. E o terceiro mandamento? Recordas qual é?
— Acho que é... guardar os domingos e dias santos.
— Hoje, como nunca antes, o homem está tão voltado para si devido ao egoísmo e, portanto, não consegue amar verdadeiramente, ouço as pessoas reclamando porque são obrigadas aos domingos a ir ao meu encontro nas missas, justamente no único dia que têm livre para dormir até mais tarde, para passear ou praticar algum esporte. Sentem que tal mandamento é opressor e que poda a sua liberdade. Porém, este mandamento que o Senhor concedeu aos seres humanos é libertador. Meu Pai concedeu este mandamento como um grande presente, no contexto da libertação de Seu povo da escravidão no Egito. Onde havia escravidão, não havia tempo para descansar, nem para estar com a família e nem com Deus. Assim, ao libertar Seu povo, Deus o presenteou com um dia por semana para dedicar a Deus, à família e a si. Quando Eu caminhava sobre a terra, percebi como este mandamento de amor foi deturpado com o passar dos séculos e voltou a escravizar os homens, proibia-os até mesmo de fazer o bem no Dia do Senhor. Eu lhes ensinei que Deus trabalha todos os dias e, portanto, Eu também o fazia. Ao invés de meu ouvir, começaram a planejar a minha morte, julgando-me herético. Novamente, o mandamento libertador volta a escravizar o ser humano devido ao egoísmo. Há necessidade de mudar o foco para compreender este mandamento. Tu não tens obrigação de participar, por exemplo, das missas aos domingos.
— Não tenho obrigação?! — exclamei surpreso.
— Eu te afirmo: tu não tens obrigação... — Jesus deteu Suas palavras neste momento, como a preparar-me para o que iria dizer-me. — Tu tens o direito de estar com Deus ao menos um dia por semana. Isso é amor, isso é Reino de Deus! E o quarto mandamento?
— Este é fácil: honrar pai e mãe.
— O egoísmo humano, fruto de seu egocentrismo, desvirtua tudo o que Deus concedeu ao ser humano por amor. Todo ser humano que vem a este mundo o vem por vontade de Deus e pela união entre um homem e uma mulher. Isto faz parte do plano de Deus. Deus utiliza o home e a mulher e os torna, por Sua graça, cocriadores. Cada ser humano deveria vir a este mundo como fruto do amor entre seus pais, no entanto, quantos nascem a partir de uma violência ou até mesmo de um descaso. A vida humana tem de surgir a partir do amor e ser acolhida com amor. Entretanto, nem sempre é assim, e cada vez mais não é assim que acontece. Por que há cada vez mais abortos sendo realizados? Leis vão pipocando pelo mundo favorecendo o aborto, pois muitas mulheres julgam ter o direito de abortar, pois são donas de seus corpos. Na verdade, não são donas de suas vidas, muito menos da vida que carregam em seus ventres. A mulher é um verdadeiro sacrário que gera e protege a vida. Mas quando se perde esta noção, quando o egoísmo fala mais forte do que o amor, como querer ser honrado pai e mãe se eles são os primeiros a cometer violência em relação aos filhos, seja pelo aborto, pela rejeição ou pela agressão? SE cada pai e mãe vivessem a vocação da paternidade e da maternidade com amor, seriam naturalmente honrados pelos filhos. Mas em grande parte do mundo de hoje vemos o desamor ocupando o lugar do amor.
Jesus falava com tanta veemência e apaixonado, que senti um embargo em Sua voz, como se estivesse chorando. O mal e a violência do mundo fazem até Deus chorar. Então, perguntou-me:
— E o quinto mandamento?
— Não matarás. — E eu disse a Jesus. — Eu creio estar começando a entender Tuas Palavras, Jesus. Tira-se a vida, porque não se vive o amor ao próximo.
— Perfeitamente, meu filho! Teu raciocínio, tua mente, a forma como vês o mundo está começando a se libertar da opressão do inimigo, que te leva a pensar em termos de egoísmo e não de amor e de vida. Quando se ama, não apenas não se mata, como se evita tudo aquilo que leva a matar.
— “Se chamares teu irmão de tolo, irás para o inferno” - disse eu, citando uma palavra de Jesus nos Evangelhos.
— Exatamente! Os grandes pecados começam com os pequenos e se não forem cortados quando começam a surgir, vão se tornar imensos e gravíssimos.
— Sim, Jesus, é exatamente como Tu dizes. Quando o amor está presente em nossas vidas, agimos em relação ao outro de maneira diferente, com mais misericórdia e compreensão, com compaixão, e assim nada fazemos de mal ao outro.
— Correto!
— Então, se colocarmos o amor em primeiro lugar em nossa vida, nunca faremos o mal a ninguém: não mataremos, não cometermos adultério, não roubaremos... Nada faremos contra o outro porque, com Tu dissestes, o outro é sagrado, é intocável em sua dignidade e vida.
— Somente a vivência do amor salvará a humanidade de autodestruir-se.
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