3.o ENCONTRO

Na homilia daquele dia, o padre falara sobre a cruz de Cristo e afirmara que não é possível ser cristão sem carregar a nossa cruz de sofrimento. Durante o meu momento de silêncio após a Comunhão, meu olhar centrou-se no imenso crucifixo preso à parede atrás do altar.
Olhando Jesus crucificado, chagado e ensangüentado, fiquei imaginando a terrível dor que sentira pregado, no monte Calvário. Mesmo não querendo pensar em nada, para que Jesus tivesse espaço para falar-me, lembrei-me das palavras do padre na homilia e pensei em minha vida.
— Senhor, minha vida sempre foi tão cama, tranqüila, sem grandes dores ou sofrimentos. Quero seguir-te, mas não sei o que é o verdadeiro sofrimento. Será que eu estou completamente errado e não estou carregando a minha cruz?
Imediatamente, Jesus falou-me:
— Meu querido filho, eu te amo e amo todos os teus irmãos. Jamais desejaria que sofresses, porque sei quão doloroso é o sofrimento. Eu quero que carregues junto comigo a cruz que o Pai te confiou, para que ela se torne a tua expressão de amor.
Disse a Jesus:
— Meu Jesus, que cruz é essa que carrego e não sinto? Eu não sei o que é dor ou sofrimento. Passei apenas por alguns momentos passageiros de angústia, mas não considero isso sofrimento. Qual é a minha cruz?
— A tua cruz, meu filho, é a mesma de todos os teus irmão, como foi a minha: fazer na vida a vontade do Pai. Foi o que eu fiz: realizei em minha vida terrena o projeto que meu Pai me confiou.
— Sempre achei terrível Deus mandar-te para o mundo para morrer na cruz, para sofrer por nós.
— Mas meu Pai nunca fez isso. Ele é puro Amor e não um ser sádico, que quer ver o sofrimento de seus filhos. O Pai enviou-me como prova de amor, para pregar a Boa Nova do Seu Reino.
— Então, por que Ele deixou que morresses daquela maneira?
— Eu morri na cruz porque o ser humano me crucificou e não o meu Pai. Quanto Ele e eu sofremos naquela sexta-feira! Quanto nós fomos tentados a agir contrariamente ao que aqueles homens faziam comigo! No alto da cruz, naquela agonia imensa, Satanás manifestou-se através de todos aqueles que diziam para eu descer da cruz e salvar-me, provando ser realmente o Filho de Deus. Ninguém consegue compreender que o maior poder de Deus não é realizar grandes sinais aos olhos humanos, mas esvaziar-se de Sua divindade e colocar-se nas mãos dos homens. Foi o que aconteceu no dia em que me crucificaram. Meu Pai enviou-me para amar, mas os homens não compreenderam isso e me mataram.
— Então eu não preciso sofrer para seguir-te?
— Não necessariamente! Só quero que sejas feliz. Se um dia, para testemunhar tua fé em mim perante homens que vivem o anti-Reino, tiveres de sofrer, tenha a certeza de que não te deixarei sozinho e estarei a teu lado, dando-te forças para suportar o teu sofrimento imposto pelos teus irmãos e não por mim ou por meu Pai. Agora vá, meu amado filho, medite sobre esta nossa conversa e agradeça ao Pai pela tua cruz, que é a tua vida. Vá e ame.

4.o ENCONTRO

Quando Jesus começou a falar-me, em nosso próximo encontro, expressei a ele a minha dificuldade em gostar de todas as pessoas. Disse-lhe mesmo que não gostava de várias, que sentia antipatia; outras, inclusive, procurava nem sequer me aproximar, pois despertavam em mim sentimentos extremamente negativos e que me faziam mal. Falava tudo isso a Jesus com total sinceridade, mas também medo do que essa revelação interior poderia representar para a minha salvação.
— Eu nunca pedi que gostasses de ninguém! — exclamou Jesus.
Fiquei estupefato com aquela afirmação.
— Como não, Senhor, se ainda em nosso último encontro me pedistes isso! E está escrito também nos Evangelhos...!!!
— Não interpretes de maneira equivocada as minhas palavras, caso contrário será para ti um grande peso seguir-me. Eu nunca pedi que gostasses de ninguém: pedi que amasses!
Fiquei ainda mais estupefato com essa nova afirmação.
— E existe alguma diferença entre amar e gostar?!! Para mim é a mesma coisa.
Jesus sorriu-me com benevolência, como se sorri para uma criança que diz alguma asneira.
— Quando se gosta, o centro desse sentimento é a própria pessoa; portanto, é um sentimento egoísta. Quem gosta, gosta daqueles que lhe agradam, que pensam de modo semelhante, com o qual tem afinidade, com o qual se simpatiza. O gostar é um sentimento excludente: gosto de alguns e não de outros; aproximo-me de alguns e afasto-me de outros; agrado, presenteio e faço favores a alguns e desprezo outros. Esse sentimento não constrói o Reino de Deus. Quão feliz seria o ser humano do qual Deus gostasse e quão desgraçado aquele do qual Deus não gostasse. Mas Deus não gosta: Deus ama! O amor não está centrado em quem ama, mas no objeto de seu amor, independente de retribuição. O verdadeiro amor é pura gratuidade, é pura doação. Veja que não há maior prova de amor de Deus para com a humanidade do que a entrega da minha Vida em favor de toda a humanidade, sem exclusão de ninguém, nem do mais pecador dos pecadores.
Fiquei em silêncio longo tempo, meditando essas palavras de Cristo.
— Em que pensas, meu filho? – perguntou-me Jesus.
— Estou me perguntando se alguma vez na vida amei alguém, ou se apenas gostei. Creio que até hoje só amei dessa maneira que me falastes a meus filhos, por quem seria capaz de dar a minha vida.
— Procura, pois, amar a todos os teus irmãos como amas teus filhos e o Reino terá se realizado plenamente em teu coração!
Permaneci com aquelas palavras o dia todo em minha mente, sentindo o quanto estava longe do que Deus esperava de mim. E eu que sempre pensei que o meu modo de vida até então era perfeito e agradável ao Senhor!